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Milú does(n’t) care about things

Milú

Gostava de ladrar aos gatos-de-ninguém

A Milú foi encontrada numa sucata com os 3 ou 4 irmãos recém-nascidos cuja mãe tinha sido abandonada depois de o dono ter ido para um lar de idosos. Teve a sorte de ser resgatada e acolhida por uma associação e depois tive eu a sorte de ficar com ela o tempo todo que ela teve. Na primeira vez que a vi, estava a correr atrás da irmã e a mordiscar-lhe uma das patas traseiras. Achei graça ao espetáculo e ficou ali decidido que viria comigo. Nos primeiros dias, não permitiu grandes proximidades: escondia-se no canto da sala atrás da mesa de jantar e punha-se a olhar para mim, desconfiada e expectante. Compreendo-a. Ninguém inteligente se entrega imediatamente a quem não conhece.

Depois com o tempo – e à medida que foi percebendo que as minhas intenções eram sérias – começou a aproximar-se devagarinho até que já só estava bem colada a mim. Literalmente. Mas nunca perdeu aquela pose de simulada indiferença, de quem não quer saber. Tudo mentira, mas admirava-lhe a personalidade e isto até deu um ‘hashtag’ nas redes sociais (#miludoesntcareaboutthings).

Gostava de ladrar aos gatos-de-ninguém que volta e meia aparecem no meu quintal, mas era amiga dos dos meus pais. Tinha medo dos autocarros amarelos da Carris, mas gostava de andar de carro. Tirando um chinelo roído, nunca lhe deu para destruições. Fazia umas birras para comer e não gostava daqueles snacks para cães que lhes damos para ensinar habilidades mais ou menos desnecessárias.

A Milú foi uma carga de trabalhos e de preocupações, mas foi também (de longe e sem dúvida) a melhor decisão que tomei em 2015. Quero acreditar que a Milú teve sorte por me ter cruzado no caminho dela, mas tenho a certeza de que quem ganhou mais fui eu(1).

(1) Esta história está escrita no pretérito porque a Milú tinha uma doença neurológica degenerativa que a foi incapacitando progressivamente e que me levou a tomar a difícil decisão de a abater (7 meses, 3 internamentos e muitos exames depois do diagnóstico).

* Esta é uma história contada na primeira pessoa. A sessão fotográfica foi realizado na casa da Milú.

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